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Os mal-entendidos a respeito da poesia moderna e do significado de liberdade artística A frase é bem conhecida de muitos: “A poesia está morrendo”. Igualmente conhecido é o suposto responsável pelo crime, nomeado freqüentemente logo em seguida: o monstro abominável do mercado. (Enquanto isso, Sancho Pança nos grita de longe: “Mas são só moinhos!”) Pondo-se de lado o melodrama, talvez estejamos diante, na verdade, de um processo histórico bem mais complexo, cheio de sutilezas, e cuja avaliação global pedirá alguns matizes mais entre a “doença terminal” e a “saúde plena”. Dentre os tantos e variados sintomas desse quadro aí suposto, apenas um será de nosso interesse discutir agora: tem relação direta com a circulação da poesia, mas não em meio ao grande público, e, sim, entre os próprios poetas.
O caso é que a história da arte, de repente, ficou mais simples: simples a ponto de nos bastar, para aprendê-la inteira, que rabisquemos ao acaso, ensinados por ninguém, o nosso primeiro e atualíssimo verso “moderno”. É assim que nos formamos poetas, e, por não sei que formas de auto-sugestão, é assim que nos convencemos de que a leitura dos nossos textos por outrem lhes possa proporcionar alguma espécie de prazer, ou proporcionar a ilusão, tão esperada por todos, de que talvez tenham em mãos, por alguns momentos, as chaves para uma melhor compreensão de si mesmos ou do mundo em volta. Salvo engano maior, esse estado de coisas pode ter raiz num único mal-entendido.
Charles Baudelaire, freqüentemente dedurado como principal responsável pela gênese da modernidade em poesia, teria mostrado com sua arte que, sim, é possível produzir beleza a partir de materiais vivos, extraídos diretamente da vida em volta, em lugar de recorrer a motivos pré-moldados e empoeirados, carimbados por aquela academia ou por aquela escola. O vigor das formas artísticas de um modo geral, ante os nossos olhos, dependeria justamente de como elas absorveriam em si o ambiente ético em que vivemos: as cruzes de nossa época, suas transformações, os milhões de desejos frustrados, as buscas ainda em curso e as pequenas glórias e misérias diárias, ora bem conhecidas daquele que escreve e dos seus circunstantes, ora por eles apenas sofridas, de modo inadvertido. A “eternidade” da arte, nas palavras de Baudelaire, precisaria se alimentar das “contingências” do nosso tempo para sobreviver entre nós. Sem isso, a poesia talvez tivesse continuado a falar em vasos gregos, enquanto a Europa sufocava de angústia. Com Baudelaire, as palavras mais espúrias, então alijadas do vocabulário “poético”, começaram finalmente a cantar, e a cantar tão bem quanto as suas irmãs aristocráticas, ou até melhor que elas. Dessa maneira, todo um complexo de tensões, típico da época, pôde ganhar voz – uma voz estranhamente bela aos ouvidos.
Artur A. Ataíde é crítico literário e integrante do corpo editorial da revista Crispim.
Leia a matéria na íntegra na edição 92 da Revista Continente.
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