Vitalino, vida feita de barro Imprimir E-mail
Escrito por Homero Fonseca   
Na edição de 1º de fevereiro de 1963, a revista Time publicou uma página com a notícia da morte de um artista plástico brasileiro. Raramente um conterrâneo obteve tamanha deferência da prestigiosa publicação americana. Era o necrológio de Vitalino Pereira dos Santos, nascido num distrito de Caruaru em 10 de julho de 1909 e morto a 20 de janeiro daquele ano.
Mestre Vitalino não tinha a menor consciência da dimensão da sua arte. Já era famoso mas levava a vida como uma brincadeira. No fundo, não compreendia muito bem o valor (financeiro e simbólico) daquilo que fazia com as mãos a partir do barro apanhado às margens do rio Ipojuca. Ele se considerava um artista, sim: um músico. Era no pífano – que tocava em festas, novenas, bares, quintais – que se realizava como artista. Ele tomou conhecimento da importância de sua obra através do Outro: intelectuais, jornalistas, críticos, personalidades do mundo exterior ao seu.
Vitalino foi um típico “artista popular”. Durante mais de quatro décadas, produziu milhares de peças abrangendo mais de 130 temas ligados ao imaginário nordestino. Já maduro, refletindo sua interação inevitável com o mundo urbano, retratou dentistas, advogados, fotógrafos em ação, cirurgiões operando, locutores de rádio.
Foi um extraordinário cronista do cotidiano popular, modelando no barro os símbolos, valores, preconceitos e sentimentos da gente pobre do Nordeste.
Como explicou o antropólogo René Ribeiro, em Vitalino – um Ceramista Popular do Nordeste (Fundação Joaquim Nabuco, 1972): “Ele não capta somente o seu mundo e o transporta ao barro. Ele veicula, pela intencionalidade das suas composições, pelo efeito de certos artifícios de atitude e de exagero de peculiaridades, ou ainda através do conteúdo de suas histórias, os valores desse mundo – estéticos, econômicos, sociais, morais, religiosos”.
Inicialmente, pintava suas peças com cores sóbrias e dramáticas, abandonando as tintas em sua fase final, quando as peças passaram a ostentar a cor natural do barro – alguns estudiosos consideram haver sido uma imposição do mercado, dos meios cultos empenhados em “preservar a pureza da arte popular”.
Por falar em arte popular, a antropóloga Lélia Coelho Frota (Bonecos de Vitalino – uma Abordagem Antropológica, Fundação Pró-Memória/Museus Castro Maya, 1986), superando a discussão meio bizantina sobre os limites entre o erudito e o popular, lembra que, significativamente, naquele museu do Rio os bonecos de Vitalino estão alinhados ao lado de obras de Picasso, Matisse, Portinari e da escultura indiana de Tandjava e das pinturas chinesas da época K'ien Lung. Assim como em muitas outras instituições brasileiras e no estrangeiro. O escritor João Condé contou que, em 1952, compareceu a uma recepção na casa da segunda ex-mulher de Picasso, em Paris, e lá encontrou, nos salões apinhados de valiosas obras de arte, uma escultura isolada, sobre uma coluna de granito e iluminada por um foco de luz vindo do teto: um boi de Vitalino. Para Lélia Coelho Frota, Vitalino era um artista com linguagem própria, se auto-expressando com maestria na criação das cenas rústicas do seu mundo social.
Antes e depois da fama, Vitalino era um homem do Agreste nordestino: analfabeto, devoto do padre Cícero, pai de seis filhos vivos, conversador cheio de verve, adepto da cachaça e de jogar sueca com amigos. Ingênuo e esperto, sempre bem-humorado (bom humor presente em muitas de suas esculturas), invariavelmente trajando paletó de brim, alpercatas de couro e chapéu, o bonequeiro emergiu do anonimato para a glória em 1947, quando a exposição Cerâmica Popular Pernambucana foi levada ao Rio de Janeiro por Augusto Rodrigues. O artista caiu no gosto das elites e, desde então, virou notícia na imprensa nacional e passou a ser atração turística na feira de Caruaru.
Em outubro de 1960, uma caravana de artistas populares pernambucanos, cujo maior expoente era o mestre da cerâmica, é levada ao Rio. O pesquisador Paulino Cabral de Melo, autor de Vitalino sem barro: o homem (Fundação Assis Chateaubriand/Ministério da Cultura, 1995), a mais exaustiva das poucas obras escritas sobre ele, narra com melancolia a maratona em que, quase como um obscuro objeto do desejo da burguesia, Vitalino é levado aos salões chiques da antiga capital, participa de jantares e recepção em que foram leiloadas 16 de suas peças, confraterniza com Manuel Bandeira, Jorge Amado, Ivo Pitangui, Ari Barroso (o leiloeiro) e outras figuras, é apresentado a governador, prefeito, empresários e artistas, recebe condecoração, conhece o Maracanã, grava programa de televisão, visita a Embaixada dos Estados Unidos e a Academia Brasileira de Letras. Voltou para Caruaru trazendo na bagagem nenhum tostão, os rapapés fortuitos concedidos às celebridades, uma cobertura de imprensa com forte viés folclórico e – importante – a gravação do seu único disco tocando pífano com banda na Rádio MEC, lançado em 1975 (Vitalino e sua Zabumba/ MEC).
O homem, cuja casa virou museu, que foi protagonista de documentário e de peça de teatro (Auto das 7 Luas de Barro, de Vital Santos), personagem de folheto (Biografia de Mestre Vitalino, de José Severino Cristóvão), tema de desfile de escola de samba do Rio (Império da Tijuca, 1977), cujas peças circularam pelos museus mais importantes da Europa e dos Estados Unidos e podem valer hoje até R$ 10.000,00, morreu de malária, doença típica do subdesenvolvimento. Pobre (mas não miserável, como insinuam as abordagens sentimentalistas), foi vítima da ignorância: recusou-se a receber cuidados médicos e foi entregue a um curandeiro. Quando a notícia de sua agonia chegou à cidade, o médico João Miranda acorreu à sua casa, mas era tarde demais. Paulino Cabral de Melo dá a explicação definitiva: “Vitalino morreu de Brasil”.