Os observadores da lama e do caos Imprimir E-mail
Escrito por Fábio Araújo   
Por Fábio Araújo



Em 1994, Chico Science & Nação Zumbi e mundo livre s/a colocavam, pela primeira vez desde os anos 70, sons feitos em Pernambuco na primeira linha da produção musical popular brasileira. O Manguebit (ou beat) dava ao mundo os seus primeiros rebentos, com os discos Da Lama ao Caos e Samba Esquema Noise, e desde então exerceria incontestável influência na vida cultural pernambucana e brasileira. O fenômeno é recente demais para que se façam análises definitivas. Mas, além de devolver Pernambuco ao centro das atenções, resgatar a auto-estima da população e estimular um renascimento cultural que repercutiu em todo o país, o Manguebit deixou pelo menos outro legado: uma série de estudos acadêmicos, que procuram entender o que aconteceu e situar o movimento nos contextos nacional e internacional.



Nestes 10 anos, desde a explosão mangue, diversos estudiosos – inclusive estrangeiros – se dispuseram a analisar o fenômeno. Um dos mais profundos estudos já realizados levou o título de Maracatu Atômico: Tradition, Modernity, and Postmodernity in the Mangue Movement and New Music Scene of Recife, Pernambuco, Brazil e rendeu, em 1999, o título de doutor ao etnomusicólogo norte-americano Philip Galinsky. Buscando esclarecer a relação entre tradicional e moderno; local e global; folclórico e pop; e doméstico e estrangeiro, no contexto da cena mangue, Galinsky argumenta que todas essas categorias são fluidas, interligadas e mutuamente benéficas. Outra afirmação do autor é que, ao contrário de ideologias anteriores que definem os gêneros brasileiros dentro de uma rede nacional, o Manguebit reforça o status da região e da cidade enquanto base da identidade cultural brasileira. No discurso mangue, “Recife” é muito mais presente do que “Brasil”.



Longe de ser algo inédito, a tão falada “mistura de ritmos” tinha antecedentes nas três últimas décadas: a Tropicália dos anos 60; a onda nordestina liderada por Alceu Valença na década de 70; e (mais esporadicamente) a geração roqueira dos anos 80, em que nomes como Paralamas do Sucesso, Cazuza, Lulu Santos e Lobão tentaram, em algum momento, fugir da simples imitação de estilos internacionais. A tese situa a cena musical pernambucana dos anos 90 em relação a esses movimentos anteriores, deixando claro que o Manguebit sofreu influência de cada um deles.



Influenciados por poetas como Augusto e Haroldo de Campos, os tropicalistas foram buscar em Oswald de Andrade o conceito de antropofagia (deglutir as influências externas, digeri-las e regurgitar um produto novo, mas essencialmente brasileiro). O Mangue também adotou a idéia, adaptando-a para as possibilidades tecnológicas de sua época.



Antropofagia pós-moderna – Nesse ponto, o trabalho de Galinsky cruza com a dissertação da jornalista pernambucana Carol Leão – A Maravilha Mutante – Batuque, Sampler e Pop no Recife dos Anos 90, defendida em 2002 no mestrado em Comunicação Social da UFPE. A autora reforça que os conceitos do Mangue não são inéditos, já que desde a década de 20, com o Modernismo, a produção musical brasileira busca se identificar com a “modernidade” e a “modernização”. A diferença, conclui, é que “a antropofagia mangue é mais específica, bem mais cosmopolita e resultado dessa tensão cultural facilitada pelo acesso à informação e às novas tecnologias”. A antropofagia de Chico Science vem embalada pela cultura midiática. A tecnologia liga-se aos ritmos tradicionais do Nordeste pela união do áudio (música) ao visual (performance), dentro do circuito comercial dos meios de comunicação de massa.



A antropofagia pós-moderna na obra de CSNZ resulta do cruzamento de vários códigos, estilos e linguagens instalados na cultura contemporânea e resultantes tanto de experiências vanguardistas quanto da industrialização e da tecnologia. A jornalista destaca o papel do Mangue enquanto contraponto ao ranço conservador de certas instituições culturais que tratavam o discurso regionalista como imutável. Mas constata que o ciclo estava, há muito, esgotando-se. “O manguebeat já não existe enquanto produto comercial. Outros chegaram para o substituir”, decreta, em referência à música eletrônica.



Escolhas musicais – Em novembro de 1994, o norte-americano Daniel Benson Sharp estava no Recife, quando assistiu a um show de Chico Science & Nação Zumbi. Achando que veria “apenas” mais um concerto de rock, Sharp ficou surpreso ao se deparar com a incomum seção rítmica da banda, que alternava batidas reconhecíveis de rock, funk e hip-hop com sons que lhe evocavam o Carnaval. O interesse por aquele som instigante e com cheiro de novidade resultou na dissertação de mestrado A Satellite Dish in the Shantytown Swamps: Musical Hybridity in the “New Scene” of Recife, Pernambuco, Brazil, defendida em 2001, na University of Texas.



Daniel Sharp abordou a complexa relação entre os fatores “lugar” e “estilo musical” no tocante às escolhas musicais da nova cena. O estudo analisou as forças que empurraram jovens músicos pernambucanos dos anos 90 para uma incorporação cosmopolita de influências globais, atraíram-nos para o local e o tradicional, ou levaram-nos para uma combinação intermediária. No Recife dos anos 90, Sharp cria uma divisão entre “músicos de raiz”, como Mestre Ambrósio, Cascabulho e Chão e Chinelo, e “bandas de Manguebit”, que abordam o tradicional com bem mais ambivalência e colagem.



Mas, Daniel Sharp faz questão de ressaltar as semelhanças que unem as duas categorias. Ele aponta convergências musicais e ideológicas, como a rejeição às idéias de música folclórica e cultura estática. Os sons são diferentes, mas todos compartilham o legado modernista de Mario de Andrade e Oswald de Andrade. Mario buscou justapor os extremos do Brasil urbano e rural, tradicional e moderno, afirmando que nenhum elemento sozinho poderia representar a nação. Já Oswald, como dito anteriormente, lançou o conceito de antropofagia, segundo o qual idéias estrangeiras podem muito bem ser usadas para criar um produto exclusivamente brasileiro. Como o Mangue.



(Leia mais na edição 46 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas.)