Um oblato que cultiva jardins, quer dizer, livros Imprimir E-mail
Escrito por Anco Márcio Tenório   

Dono de memória prodigiosa e erudição de quem dedicou a vida aos livros, Edson Nery da Fonseca conviveu com grandes intelectuais, brasileiros e do exterior



Foi na tarde de 16 de agosto de 1983 que vi Edson Nery da Fonseca pela primeira vez. O fato se deu numa reunião ordinária do Seminário de Tropicologia, que então se realizava na sede da Fundação Joaquim Nabuco, ainda sob a coordenação de Gilberto Freyre, e que tinha, naquele dia, como conferencista, a escritora Rachel de Queiroz. Confesso que o meu interesse por ver e ouvir a escritora cearense (e, por extensão, poder avistar pela primeira vez Gilberto Freyre) sobrepujava a curiosidade em saber sobre os demais membros efetivos do seminário. No entanto, aquele senhor alto, de porte aristocrático, voz firme, gestos elegantes, de pele muita clara, que recitara Manuel Bandeira (Louvado) de memória, quando dos seus comentários à palestra da conferencista, chamou a minha atenção.

Quase sete anos depois voltei a avistá-lo novamente. Era julho de 1990. Estava no aeroporto do Recife e me preparava para embarcar para São Paulo, onde ia fazer pesquisas para a minha dissertação de mestrado. Na espera do embarque, encontrei-me com o amigo e poeta Orley Mesquita, que o acompanhava. Naquela ocasião, fui apresentado formalmente ao oblato que era considerado não apenas o papa da biblioteconomia brasileira, mas a maior autoridade do mundo na obra de Gilberto Freyre. E foi sobre livros e bibliotecas que versou nossa primeira conversa. Elogiei seus artigos publicados nos jornais do Recife e ele, por sua vez, me confidenciou que vinha escrevendo um novo livro sobre biblioteconomia. Livro este que revelava o quanto ele amava a literatura, pois cada capítulo trazia uma epígrafe de um poema. Esse livro, que seria publicado dois anos depois, era a Introdução à biblioteconomia. Obra fundamental não só para quem estuda a ciência da informação, como para qualquer um que ame o livro e a sua história.
 

Nosso terceiro encontro (e inicio de uma amizade efetiva) se deu por ocasião de uma visita que eu e Orley Mesquita fizemos à sua casa, na rua de São Bento, em Olinda, em 1995. Se for verdade, como diz o ditado, que para se conhecer melhor uma pessoa faz-se necessário visitá-la na sua morada, creio que esse ditado se ajusta ao universo de Edson Nery da Fonseca. Sua casa encerra — através dos inúmeros quadros, móveis, livros, fotografias, santos, discos e os gatos que lá habitam — os registros da sua trajetória de vida, das coisas que lhe foram caras ao longo da sua existência de 87 anos. Ali estava a maior das suas paixões: o livro. Ou melhor, os seus mais de 12 mil livros. Reinando absolutos em todos os recantos da casa, aqueles volumes acusavam não somente que estávamos na casa de um leitor ávido, mas de um leitor que amava o conhecimento no sentido mais amplo da palavra. Sua biblioteca cobria livros de literatura, biblioteconomia, antropologia, sociologia, história, arquitetura, livros religiosos e de arte, textos da dramaturgia universal, do cinema, volumes de memórias, biografias e autobiografias.

A impressão diante de tão precioso acervo era de que os demais objetos da casa se constituíam apenas numa extensão ou mesmo num desdobramento daqueles volumes que compunham a biblioteca. Biblioteca que podia ser batizada de “jardim”, como bem denominou, em 1250, Richard de Fournival, chanceler da catedral de Amiens, ao comparar uma biblioteca com um lugar onde vamos colher os frutos do conhecimento. Se tudo no mundo existe para acabar em livro, como escreveu Mallarmé, tudo existe na casa de Edson Nery da Fonseca para terminar na sua biblioteca, ou girar em torno dela. Porém, no centro de tudo, encontra-se ele – o jardineiro –, aquele que cultiva e rega os canteiros do seu jardim.

Leia a matéria na íntegra na edição 100 da Revista Continente.