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Notas coloquiais sobre Robert e Clara Schumann TEXTO: Edson Magalhães Bandeira de Mello Robert Alexander Schumann nasceu em 8 de Junho de 1810, em Zwickau, pequena cidade da Saxônia, Alemanha. Para nos situarmos na época, lembremo-nos de que Chopin nasceu no mesmo ano de 1810; Mendelssohn, no ano anterior, em 1809; Liszt, no ano seguinte, 1811; Wagner e Verdi em 1813 e, ainda: Schubert tinha 13 anos e Beethoven 40.
O pai de Robert, Friedrich August Schumann tinha uma livraria e vasta biblioteca – e gostava de ler, ler e ler ainda mais. Também traduzia os poemas de Byron, escrevia novelas góticas e reunia-se, frequentemente, com intelectuais de Zwickau e de cidades próximas. Assim, não lhe sobrava muito tempo para o comércio de obras literárias e culturais. Johanna Christina Schumann, sua esposa, pianista amadora e mãe de Robert, concretizava as tarefas comerciais. Robert tinha quatro irmãos: Eduardo, Carlos, Júlio e Emília. Todos criados em um ambiente de cultura. Sabe-se que Robert, em seus estudos secundários, gostava do grego e do latim conhecendo, profundamente, os autores da antiguidade clássica além de manter os hábitos do pai: ler todos os livros da livraria e cultivar o contato com os intelectuais que ali se reuniam. Cultura sólida de um leitor insaciável não apenas dos clássicos greco-romanos, mas, igualmente, dos poetas e novelistas românticos. Sua preferência recaiu sobre Jean-Paul Richter, poeta alemão que exerceu grande influência sobre ele. Talvez por ter sido um dos precursores da “tensão entre os opostos” característica primeira do romantismo de Robert.
Considerado um poeta secundário, Jean-Paul era admirado pelos jovens poetas da época, sendo venerado por Robert: "Se todos lêssemos Jean-Paul, seríamos, sem dúvida, melhores (...)"; " Schubert será sempre o meu único músico, pois tem tudo em comum com o meu único Jean-Paul.” Além de cultivar a leitura e reuniões culturais, Robert Schumann escrevia. Escrevia muito. Poemas, cartas, novelas sucediam-se e acentuavam um sério dilema: ser poeta ou ser músico? Ou vir a ser ambos? Seu talento musical despertou cedo. Aos sete anos, iniciou seus estudos musicais com Johann Kuntzsch. Mesmo não sendo um grande músico, Kuntzsch estimulou o futuro compositor. Aos nove anos, o pai levou-o a um recital do grande pianista Moscheles. O acontecimento causou-lhe profunda e duradoura impressão. Vinte anos após, ao visitar Moscheles, Robert, fez-lhe a entrega do Programa daquele recital com uma dedicatória na qual era viva essa lembrança. Quando completou 15 anos, Kuntzch comunicou a Robert que nada mais tinha a lhe ensinar.
Pouco tempo depois, uma tragédia brutal abateu-se sobre sua família: Emília, irmã de Robert, a quem ele amava ternamente, suicidou-se. O pai, que não se encontrava em boa saúde, não suportou tão violento golpe, falecendo naquele mesmo ano. O jovem Robert perdeu sua irmã querida e o pai amigo, de quem recebia apoio incondicional. De temperamento afável e sonhador, Robert jamais conseguiu recuperar-se dessas perdas.
Com o passar do tempo, e como era costume das famílias de então – na falta do pai, a mãe decidiu que Robert deveria cursar Direito. Assim, em 1828, Schumann ingressou na Faculdade de Direito de Leipzig. Simultaneamente, porém, tornou-se aluno de Friedrich Wieck, famoso professor de piano. Wieck era pai de Clara, talentosa menina-pianista de nove anos, que viria a ter profunda influência na vida de Robert. Wieck depositou grandes esperanças no jovem e, em vista dos grandes progressos obtidos em curto tempo, assumiu o seguinte compromisso com a mãe do mesmo: "Graças ao talento e imaginação de seu filho Robert, comprometo-me, minha senhora, a fazer dele, em menos de três anos, um dos maiores pianistas vivos. Mais espiritual e ardoroso que Mocheles, mais magnífico que Hummel.” Tal compromisso, assumido por um dos mais conceituados professores da época, venceu a resistência da mãe, concretizando a opção de Robert pela música. De imediato, nos meses seguintes, surgiram as primeiras obras notáveis: as Variações sobre o nome Abbeg e os Papillons.
Em 1830, ano em que pôde optar pela música, Robert foi morar na casa dos Wieck. No piano, enormes progressos. Seria um virtuose. Um novo infortúnio o aguardava porém: objetivando desenvolver mais rapidamente sua técnica digital, teve a infeliz ideia de imobilizar o dedo médio da mão direita, fazendo uso de uma liga, na tentativa de proporcionar maior independência ao dedo anular. É pouco compreensível que um professor como Wiek tenha autorizado tal desastre. Autorizado, o desastre ocorreu: o dedo imobilizado tornou-se paralítico. Assim, desaparecia o virtuose e surgia o genial compositor. Robert entregou-se, de corpo e alma, à composição e à crítica musical. Em 1834, escreveu sua primeira obra-prima para o piano Carnaval, Opus 9 e, logo depois, os Estudos sinfônicos, Opus 13.
Como crítico musical, também em 1834, fundou A Nova Gazeta Musical. Seus redatores (Schumann, Wieck, Schuncke, Lyser, Hiller, Mendelssohn e Wagner) formavam a Sociedade dos Companheiros de David. Escrevendo sob pseudônimos, os Davidsbündler investiam contra os "filisteus", críticos e músicos reacionários que se opunham aos novos talentos musicais, como Chopin e Mendelssohn. As múltiplas facetas de Schumann apareciam na revista sob os nomes de Florestan, impetuoso e arrebatado, e do tranquilo e afetuoso Eusebios, ambos, sem dúvida, o reflexo das “tensões entre os opostos” que, tão cedo, Schumann encontrou em Jean-Paul Richter. Como vimos, Robert Schumann morava na casa os Wieck. Conheceu, portanto, Clara Wieck bem antes de apaixonar-se pela jovem. Tal paixão surgiu quando Clara tinha 16 anos e voltava de uma das suas inúmeras turnês como pianista. Indo recebê-la, Schumann escreveu: "Você pareceu-me mais crescida e mais estranha. Já não é mais a criança com a qual eu poderia rir e brincar. Você dizia coisas sensatas e eu vi, em seus olhos, um secreto e profundo brilho de amor”.
O amor entre Robert e Clara despontava definitivamente. Ele tinha 25 anos, e como nada é assim tão perfeito, surgiu a barreira do pai. Pai de uma criança prodígio. Moldada para ser musicista brilhante. Inconcebível, para o pai, não opor-se desde o início ao romance entre sua filha e seu melhor aluno. Jamais ele admitiria que sua filha se casasse, tivesse filhos e abandonasse sua carreira. Para ele, Clara estava fora dos padrões da normalidade e sucumbiria se vivesse assim. Então, passou ao ataque. Mandou Clara para Dresden, proibindo-a de comunicar-se com Robert. Programou um maior número de apresentações para a filha, sempre fora de Leipzig, e caluniava o pretendente chamando-o de bêbado, volúvel, mulherengo, vagabundo incurável, filho de uma família mentalmente insana, e outros epítetos semelhantes.
Longos anos de conflito que culminaram em demanda judicial: Clara e Robert solicitavam permissão para casar-se apesar da oposição do pai. Apesar de todo o desgaste do conflito com Wieck, Robert não deixou de compor. Anos conturbados de paixão nos quais nasceram as Cenas Infantis, Arabesques, Novellettes, Carnaval de Viena, Blümenstück, os lieder dos ciclos Myrthen, Liederkreis, Frauenlibe und Leben e Dichterliebe, além de dezenas de outras canções. Em 12 de Setembro de 1840, a causa dos dois foi ganha. Casados, a ligação entre Clara e Robert não fez mais que aumentar. Como era comum, na sociedade de então, Clara e Robert mantinham, cada qual, o seu diário íntimo. Já casados, resolveram transformar os dois diários em um diário comum aos dois, fonte de confidências, esperanças, promessas, necessidades e união sincera. Tiveram oito filhos e todos os problemas de uma família numerosa, o que não impediu que trabalhassem ativamente: ele compondo e ela apresentando-se nos principais centros europeus.
É possível imaginar e mesmo ler no diário que mantinham, as necessidades conflitantes de uma pianista consagrada, que devia estudar 10ou 12 horas por dia, e as de um compositor fecundo, ansioso pelo silêncio que lhe permitisse gerar o que lhe ia na alma. Schumann era um homem genial, um estudioso de vasta cultura e de conhecimentos profundos. Clara era uma virtuose. É interessante notar que Robert tinha gande interesse em transmitir à Clara a compreensão dos diversos estilos e estruturas das diferentes épocas da música. Clara, receptiva e interessada, aos poucos deixava de ser apenas a virtuose formada por Wieck, transformando-se na musicista formada por Schumann. Por sua vez, estimulado por Clara, Robert mostrou interesse em dominar outros gêneros que não apenas o pianístico. Seu ritmo de trabalho, normalmente muito intenso, tornou-se frenético. Disso resultaram sérias crises nervosas, como as do início de 1843, as de julho de 1844 e as de 1847. Em 1853, teve alucinações auditivas, ouvindo incessantemente a nota "lá" e a isso juntou-se a dificuldade da fala e a melancolia. No ano seguinte, com alucinações mais frequentes, em seus momentos de lucidez era tomado pelo temor de tornar-se completamente louco. A obsedante nota "lá" transforma-se, então, em música. Música descrita por Schumann como "a mais bela e maravilhosa, executada por instrumentos que ressoam tão esplendidamente como jamais se ouviu".
Mas o tempo passava. Em 30 de setembro de 1853, por volta do meio-dia, a campainha tocou. Marie, filha de Robert e Clara, correu para atender. Era um belo jovem, louro, imberbe, de rosto fino, que com voz fraca e tímida pediu para falar com o compositor Robert Schumann. Marie disse-lhe que o pai não estava, mas que poderia encontrá-lo no dia seguinte, por volta das 11 horas. No outro dia, ao voltar, quem lhe abriu a porta foi o próprio Robert. O jovem era um músico, como muitos que vinham ver o “mestre”, o “grande Schumann”. Ele trazia, debaixo do braço, suas composições manuscritas. Tinha 20 anos e vinha com uma carta de apresentação de Josef Joachim, grande violinista e grande amigo de Robert. Seu nome era Johannes Brahms. De aspecto infantil, não falou mais nada e, convidado por Schumann (que também falava pouco), sentou-se ao piano tocando suas composições. Após alguns compassos, Schumann levantou-se. Agitado, com uma alegria incontida, gritava forte: “Clara! Clara! Você vai ouvir uma música como nunca ouviu antes. Venha! Venha depressa! Clara veio correndo e o adolescente de Hamburgo recomeçou a tocar. Robert Schumann, estava comovido, porque reconhecia na música de Brahms os ecos da sua própria imaginação musical. Os Schumann, emocionados, naquele dia não fizeram o costumeiro passeio do casal. Brahms ficou para almoçar. À tarde, tocou mais. Clara também tocou e Schumann escreveu, em seu diário: “1º de Outubro: Brahms em visita (um gênio)”.
Uma nova etapa na vida do jovem Brahms estava prestes a começar. Na de Robert, prestes a se encerrar. Em pouco tempo, Brahms passou a viver na casa dos Schumann como membro da família. Robert recomendava suas obras aos seus editores e escreveu um famoso artigo na Nova Gazeta Musical, intitulado Novos Caminhos. Neste artigo, Brahms era denominado de "jovem águia" e de "eleito". Noite de 17 de fevereiro de 1854. Insone, Schumann levanta-se repentinamente para escrever um tema ditado por anjos que via ao seu redor. Mas essas figuras celestiais transformavam-se em demônios, na forma de hienas e de tigres, com músicas tenebrosas. Robert pede para ser internado. Poucos dias depois, em 27 de fevereiro, atira-se às águas do rio Reno, sendo salvo por pescadores. É conduzido ao asilo de Endenich. Lá, morre em 29 de julho de 1856, aos 46 anos de idade. Os pesquisadores Eliot Slater, Alfred Meyer e Eric Sams afirmam que a demência de Schumann seria decorrente de uma sífilis terciária malcurada. No entanto, é duvidoso que, naquela época, um sifilítico tenha se casado, tido oito filhos, e não tenha contagiado a mulher ou qualquer dos filhos.
Edson Magalhães Bandeira de Mello Professor Titular da UFPE Membro da Academia de Artes e Letras de Pernambuco Fontes de pesquisa: Radio e Televisão Portuguesa
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