Os últimos dias de Torquato Neto Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Carlos Monteiro   
Torquato Neto nasceu em 9 de novembro de 1944, no Piauí, e suicidou-se no Rio de Janeiro, em 1972, um dia depois do seu aniversário. Artista múltiplo e rebelde, com algo de neo-romântico, nunca cedeu a pressões de ajustamento social



Torquato Neto sempre fez questão de tornar explícitas as marcas individuais de um posicionamento artístico radical e dissonante. A miscelânea dos poucos escritos que deixou inclui poemas, cartas a amigos, composições musicais, um esboço de diário do hospício e artigos de jornal. Situada numa dimensão bem mais cultural que propriamente literária, essa produção resultou num livro organizado pelo poeta-compositor Waly Salomão e por Ana Duarte, artista plástica que foi casada com Torquato. Os Últimos Dias de Paupéria teve uma primeira edição no Rio de Janeiro, pela livraria Eldorado Tijuca, em 1973. A segunda, ampliada em novo projeto gráfico, saiu em São Paulo, em 1982, pela Max Limonad. Incorporava desenhos, fotografias e poemas visuais e trazia também o subtítulo “Do lado de dentro”. Recentemente começaram a circular, na Internet e em impressos, poemas que não tinham aparecido em Paupéria.
Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu a 9 de novembro de 1944, em Teresina-PI, e terminou por suicidar-se no Rio de Janeiro, em 1972, um dia após o seu aniversário. Na sua performance de artista múltiplo e rebelde, com algo de neo-romântico, não cedeu jamais a apelos e pressionamentos ideológicos de ajustamento social. A estrofe inicial do poema Cogito – que ficou conhecido após sua publicação na antologia 26 Poetas Hoje (1976), de Heloisa Buarque de Holanda – reflete um estado de espírito utópico e transgressivo: “Eu sou como eu sou/ pronome/ pessoal intransferível/ do homem que iniciei/ na medida do impossível”. Vinculado estreitamente ao tempo que lhe coube viver, não recuou diante do perigo e da paranóia que representava ser um marginal ou um “desbundado”, e assumi-lo inteiramente nos anos 60/70. Em outra estrofe de Cogito, pregava: “Eu sou como eu sou/ presente/ desferrolhado indecente/ feito um pedaço de mim”. Um poeta maldito – ou um cult artist, na expressão do concretista Décio Pignatari – que conhecia os principais meandros da política marxista-leninista e da psicanálise reichiana, da antipsiquiatria e do existencialismo absorvidos pela juventude da época.
Acuado no “ventre escuro” do imenso país tropical, constatou que eram vedados quaisquer passos e ações no sentido da construção de um mundo aberto, livre e desreprimido. Por isso, oscilava permanentemente entre uma vida normal de compositor e jornalista e o alcoolismo compulsivo. Além do mais, padecia de uma loucura indecifrada, com o conseqüente internamento periódico em sanatórios e hospícios. Em bases anarquistas, ensaiava a proposição de um mundo sem a presença opressiva do Estado burocrático totalitário, hoje parcialmente destronado pelo mercado financeiro, mas ainda assim a ditar regras para a massificação e controle da sociedade. Um mundo idealizado, sem a rigidez conservadora da família convencional zelosa e ciosa de seus valores freudianos e pequeno-burgueses. Esse tipo de anarquismo configurava-se, talvez, por outro lado, como uma resposta ao esquerdismo militante sectário e atávico. Traduzia-se também num código sensivelmente avesso ao engajamento como forma limitadora das ações humanas e da liberação de energias vitais e necessárias à criação artística. Não se imagine, no entanto, que essa atitude poderia desembocar, sem maiores questionamentos, numa atitude retrógrada ou alienada. Ao contrário, Torquato continuava alimentando suas idéias e sonhos libertários, e cultuando em certa medida e a seu modo seus “mitos necessários”. Entre eles, Jimi Hendrix (a quem teria conhecido pessoalmente) e Che Guevara, que, segundo palavras de Torquato em 1971, “morreu apenas para que se cantasse (chorando) o seu mito”.
Um dos momentos de maior ressonância do fazer criativo de Torquato Neto foi, sem dúvida, a sua atuação à frente da coluna Geléia Geral, no jornal carioca Última Hora. Na Geléia Geral, que durou pouco mais de seis meses (de 19/8/71 a 11/3/72), pôs em prática a sua formação jornalística, utilizando-se de uma linguagem sugestivamente transgressora, ocupando diariamente brechas e espaços que aquele jornal semi-oficial permitia.
Entre 68 e 72, Torquato manteve um diário secreto – os textos “escondidos”, como a eles referiu-se Waly Salomão. Embora contendo poucos textos e com flagrantes interrupções temporais, este diário diz muito da sua persona lacerada, tanto artística quanto humana. Porque se ele tencionava uma junção total e irremissível entre a vida e a arte, ou mais precisamente, entre vida e poesia, sabia também que há instantes em que essa relação não se completa. Ninguém pode ser poeta em tempo integral, quando isto for sintomático do ilhamento do poeta em si mesmo, fechado ao mundo e à experiência que o cerca. Além disso, há fronteiras limitadoras e arestas não polidas no indivíduo, que permitem atitudes estúpidas e antipoéticas, levando-o a enveredar às vezes por caminhos indesejados.
Torquato Neto jamais ousou trair a sua poesia, mesmo que uma tal ousadia significasse a antecipação cotidiana da própria morte. Afirmou em uma das “pílulas” (que mais se assemelhavam a bem acionados e contundentes torpedos) da Geléia Geral: “O poeta que trai sua poesia é um infeliz completo e morto”. E por não ter traído a si mesmo nem à poesia – “A poesia é a mãe das artes”, dizia – é que deixou, para reflexão geral, o testemunho singular de uma poesia que somente poderia se completar em fusão com a vida: “Um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo e sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela”.