O menino, o engenho e o esquecimento Imprimir
Escrito por Marcelo Costa   
Por Marcelo Costa



O cinema surgiu como forma de registro imagético de uma realidade que acontecia diante das lentes da câmera. Assim foi com A chegada do trem na estação (1895), dos Irmãos Lumiére, tomado como o primeiro filme já realizado, no qual a câmera e os realizadores desempenhavam o papel de observador e historiador, à medida que capturavam instantâneos, aprisionavam determinado momento em uma película em movimento que poderia funcionar como documento histórico. Com o decorrer dos anos, além do caráter ficcional desenvolvido, o valor documental do cinema também se aperfeiçoou: valendo-se do imenso manancial de imagens e do advento da captação do som direto – facilitador de depoimentos e entrevistas –, os registros visuais e sonoros que se acumularam em um século dominado pelas imagens tornaram-se grande repositório de memórias e arquivos que (re)visitados podem resgatar ou construir novo sentido para momentos e personagens históricos.



Ciente disso, o cineasta paraibano Vladimir Carvalho construiu um grande mosaico de imagens e depoimentos no tocante O engenho de Zé Lins (2007); uma tentativa de resgatar a importância do escritor José Lins do Rego e impedir que seu nome e obra caiam na grande vala do esquecimento. Lançado no ano do cinqüentenário de sua morte, o documentário reconstitui a trajetória do escritor à medida que revela os traços mais fascinantes de sua personalidade impulsiva e eloqüente. Um rico repertório de imagens de arquivo, aliado ao único trecho original da voz do autor e a depoimentos fundamentados na notoriedade e no conhecimento de seus interlocutores, expõe o fascínio despertado pela vida e pela obra do escritor, cuja importância parece desaparecer numa extensa névoa inebriante de ícones instantâneos.



Logo na seqüência de abertura um menino (Ravi Lacerda, de Abril despedaçado) assiste estupefato à paixão de Cristo em meio ao ambiente rural, sugestivo de um engenho. A cena de contornos fictícios confere ao filme o tom de evangelho e introduz o calvário vivido por aquela criança que precocemente tornou-se adulto, mas sem liquidar a meninice não vivida. A partir da infância do menino Zé Lins no engenho da zona açucareira da Paraíba, relatada por depoimentos saudosos de parentes e amigos, o filme investiga os fatos determinantes para a construção de sua personalidade e o inter-relacionamento com sua obra. Um episódio traumático e pouco conhecido de sua infância é revelado com delicadeza como possível catalisador de sua angústia e instabilidade emocional; talvez o maior peso da cruz de seu calvário.
Os cenários, as relações sociais e humanas presentes nos livros também têm origem nas paisagens e no desolamento do engenho – imortalizado no livro de estréia, Menino de engenho, e nas outras obras do Ciclo da Cana-de-Açúcar. A própria imagem do local é utilizada pelo diretor e pela fotografia, do irmão Walter Carvalho, como uma tela ilustrativa e nostálgica do esquecimento. As ruínas, o abandono a que está submetido sugerem o passar dos anos e a ameaça de aniquilamento do escritor na memória e no imaginário das novas gerações. Numa escola cujo nome é José Lins do Rego, Vladimir Carvalho pergunta aos alunos se eles já leram alguma linha do autor de Bangüê e Riacho doce e constata a esclerose literária a que estão submetidos. Nesse momento, Carvalho deixa claro o propósito, propagandístico inclusive, do seu filme: reavivar e resgatar a memória do escritor via retórica verbal e visual.



Num dos momentos mais interessantes, o escritor Ariano Suassuna revela a injustiça cometida pela crítica e pela memória coletiva com a obra de Zé Lins. Segundo o dramaturgo, e o próprio Vladimir Carvalho que opina na discussão, o grau de denúncia e investigação social promovido pelo escritor está bem adiante daquele realizado por Gilberto Freire, que se gabava pelo surgimento e pela formatação de Zé Lins como escritor; fato tratado com ironia por Ariano. Afinal, apesar da grande amizade surgida nos anos da Faculdade de Direito do Recife e da idolatria que Zé Lins nutria pelo sociólogo, cuja influência é inegável, seria um exagero considerá-lo como uma marionete literária.
Carlos Heitor Cony reforça a importância do escritor paraibano ao afirmar que o Modernismo não teve início na Semana de Arte Moderna em São Paulo e sim com os escritores nordestinos como o próprio Zé Lins, Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz, que depõe, pouco antes de seu falecimento, sobre a afetividade do amigo escritor. Já Walter Lima Jr., responsável pela versão filmada de Menino de engenho (1965), também presente no documentário, exalta a relevância do escritor para a cultura e o cinema nacional ao revelar que o clássico Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha, fora inspirado em Pedra bonita (1938) e Cangaceiros (1953), ambos do Ciclo do Cangaço de Zé Lins; enquanto o então ator mirim, Sávio Romão, sucesso na época do lançamento do filme, hoje esquecido, fala sobre as filmagens em meio à relva do abandono que encobriu o engenho.



A paixão pelo Flamengo e situações anedóticas de uma personalidade impulsiva e por vezes performática também são relatadas, como na ocasião em que Zé Lins, após visita ao vestiário do Flamengo, promove passeata contra os atletas mercenários, onde queima a camisa de Jair da Rosa Pinto: a questão é que ao abraçar o jogador, depois da derrota de seu time, o escritor constatou que a camisa vestida pelo craque estava enxuta. Cabe ao poeta Thiago de Mello os relatos mais íntimos da vida de Zé Lins, inclusive um depoimento doloroso dos últimos dias do escritor no leito do hospital, onde faleceu aos 56 anos de cirrose hepática. Um grande fluxo emotivo jorra da tela nas trêmulas palavras oprimidas pelos soluços e lágrimas saudosos do escritor.



Talvez excessiva, essa cena desnuda o filme de qualquer pudor para mostrá-lo como de fato é: retrato apaixonado de um admirador de Zé Lins, incapaz de se esquivar do arrebatamento e de uma construção narrativa sustentada pela retórica verbal e visual para reacender a memória de um expoente da literatura regionalista brasileira. Apesar disso, Vladimir Carvalho demonstra a sua habilidade em lidar com o elemento humano para atingir seu objetivo. Como uma escultura que se deforma e remodela, promove um novo olhar de Zé Lins, não como peça estática e empoeirada de museu e sim com o dinamismo de algo pulsante, a memória de um menino que aprendeu precocemente a ser adulto e que quando adulto teve de carregar o menino dentro de si. A história, como define uma de suas tias em seu depoimento, do “menino que ia dar pra coisa”… e deu.




(Leia mais, na edição nº 87 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas)