Vargas Llosa e o impacto de Os Sertões Imprimir
Escrito por Antônio Arrais   
Ao ler Os Sertões, na intenção de escrever o roteiro para um filme de Ruy Guerra, Mario Vargas Llosa teve uma experiência definitiva, da qual nasceu o romance A Guerra do Fim do Mundo, considerado por ele sua mais importante obra



“Creio que este é o mais importante dos meus livros e, em todo caso, se eu pudesse eleger – e não escrever nada mais; espero que isso não ocorra – gostaria de ser recordado por esse livro. É um livro que me custou muito trabalho porque foi a primeira vez que escrevia sobre um tema não peruano, sobre um tema que não era contemporâneo, de cunho histórico, e em que os personagens não falavam meu idioma, mas uma língua distinta. Tudo isso significou para mim uma grande dificuldade. Tive que fazer um trabalho de documentação bastante amplo, mas ao mesmo tempo o tema me apaixonava tanto, me foi apaixonando de tal forma, que isso me deu forças para terminar um romance que durante muito tempo tive a sensação de que nunca poderia terminar. Foi um trabalho muito intenso”. [Mario Vargas Llosa in O Globo, 21-08-1982, p. 29]



Aos oitenta anos de Os Sertões, o escritor Mario Vargas Llosa veio a Brasília, durante uma semana de agosto de 1982, colher os louros de um ano de sucesso de crítica e público do que foi, à época, o seu livro mais monumental – A Guerra do Fim do Mundo (1981), justamente um romance que resgatava, inclusive com elementos do realismo fantástico, a saga de Canudos. Vinte anos passados, este livro ainda se destaca na vasta bibliografia de Vargas Llosa e ombreia com outra obra sua – Conversa na Catedral (1969).
Vaidoso, atencioso, sempre sorridente e condescendente, Vargas Llosa, então com 46 anos de idade, arrancou suspiros das jovens estudantes, que foram vê-lo durante uma semana de agosto dentro dos “Encontros Internacionais da UnB (Universidade de Brasília) – Mario Vargas Llosa por Ele Mesmo”, embora a sua simpatia tenha contagiado também sisudos jornalistas, que se deixaram seduzir e envolver por sua atenção até mesmo às mais pueris perguntas, como a que eu tive a coragem de fazer-lhe: se havia lido Os Sertões em português mesmo. “Por supuesto”, respondeu, como querendo dizer: “É óbvio que sim”.
Vargas Llosa repetiu em várias entrevistas a dificuldade que foi produzir o seu livro e o esmorecimento que o acometeu nos quatro anos entre o roteiro cinematográfico, que foi o seu primeiro contato com Os Sertões, para um filme de Ruy Guerra, jamais realizado, e depois as exaustivas pesquisas até o texto final de A Guerra do Fim do Mundo, que veio a ser um dos seus best-sellers no Brasil – fato que, aliás, o surpreendeu muito:
“Não esperava tanto sucesso. Foi uma coisa que me surpreendeu, e sobretudo me comoveu muito. Eu tinha bastante temor, devo confessar, à reação dos leitores brasileiros. Porque você sabe que há sempre esse nacionalismo um pouco absurdo, que pensa que os temas nacionais não devem ser abordados por estrangeiros, existe essa mentalidade em muitas partes. E para mim foi sumamente grato ver que os leitores brasileiros não são nada chauvinistas nem xenófobos, que tanto os leitores como a crítica foram muito generosos com o meu livro, e estou sobremaneira alegre que meu livro esteja sendo tão bem divulgado no Brasil”.
Os primeiros contatos de Vargas Llosa com Os Sertões se deram como roteirista de um filme do cineasta Ruy Guerra, que nunca foi feito, depois como observador in loco dos sertões baianos, onde esteve em 1979, durante três meses, mas onde ele infelizmente já não pôde visitar as ruínas de Canudos, porque à época os seus vestígios estavam submersos pela barragem de Cocorobó. Soube-se, depois de sua passagem por Brasília, que o cineasta Ruy Guerra metera-lhe um processo de plágio, sob o argumento de que a base do livro era o roteiro não filmado. Llosa sempre lembrou que a base foi o livro de Euclides da Cunha, e que isso não era plágio:
“Ler Os Sertões e isso foi definitivo. O livro é tão rico, tão estimulante, que compensa o esforço que eu tive a princípio para entrar dentro da linguagem complicada de Euclides da Cunha. Para mim, Os Sertões é das melhores experiências que tive como leitor. Foi realmente o encontro com um livro muito importante, com uma experiência fundamental. Um deslumbramento, realmente, um dos grandes livros que já se escreveram na América Latina. E isso foi decisivo, isso me deu toda uma curiosidade e um interesse enorme pelo tema de Canudos e também pelo personagem de Euclides da Cunha. Assim nasceu a idéia do romance”.
No livro existem aspectos religiosos, sociais e políticos que estão perfeitamente colocados. O Sr. já havia convivido com situações semelhantes em seu país?
“Sim. Eu acho que a razão principal para escrever este livro, além do objetivo inicial do roteiro, foi descobrir, no drama de Canudos, uma série de fenômenos que, para mim, são constantes na história latino-americana. O encontro violento de duas sociedades, incomunicáveis entre si, em tempos históricos distintos, com mentalidades distintas, uma mentalidade regional e outra européia, uma mentalidade liberal e outra religiosa, duas culturas distintas dentro de um mesmo país, que pela falta total de comunicação e diálogo se matam. Mas também a alienação ideológica, do ponto de vista político ou religioso. Todos os países latino-americanos devem ter vivido em algum momento de sua história – ou seguem vivendo até hoje – tragédias parecidas com Canudos e por razões muito semelhantes. Por falta de comunicação, por fanatismo muito mais religioso, isso hoje. Mas o elemento mais comovedor e positivo é que no mundo do sertão baiano, pobre e desamparado em todos os sentidos, a gente encontra um potencial humano com uma criatividade extraordinária. É uma gente que vive na miséria, sem diálogo, sem ajuda, mas que é capaz de criar suas formas de vida e partir de meios minúsculos. É uma cultura em fermentação.”
Sobre o processo de criação, contou Llosa: “Quando comecei a escrever o romance não quis vir [ao Brasil, ao interior baiano] até que tivesse terminado uma primeira versão, um borrão. Parecia-me que poderia trabalhar com mais liberdade, sem conhecer os lugares, pelo menos nessa primeira etapa. Logo depois de uns dois anos que estava escrevendo, eu vim, e passei uns meses no Nordeste, e isso me ajudou muito – foi um mês em Salvador e dois meses no interior. Foi uma experiência extraordinária para mim. Em primeiro lugar, o encontro com a paisagem fez-me entender muitas coisas que para mim não estavam claras, a psicologia dos personagens, a idiossincrasia do sertanejo, do jagunço. E também o contato humano, ver que a história de Canudos estava ainda muito viva na memória das pessoas, as pessoas falavam tanto sobre ela. Isso me deu muito material para trabalhar. Recebi muita ajuda de muita gente. Aqui no Brasil me emprestaram livros, me enviaram fotocópias, artigos, depois tive ajuda em Salvador, e depois tive a sorte de trabalhar um ano na Biblioteca do Congresso, em Washington, onde terminei de escrever o meu livro. Lá, eu encontrei, por exemplo, jornais de época que eu não havia encontrado aqui, sobretudo um diário que para mim era muito importante: O Jacobino, dirigido por um jacobino da primeira República, que se chamava Alendo Guanabara, um dos jornais que meteu mais cizânia à época da guerra. E eu queria ler esse jornal, e não encontrei senão uma poucas cópias aqui perdidas, em Salvador. Felizmente em Washington eu encontrei a coleção completa, a íntegra de O Jacobino, que me serviu muito. Supõe-se que me utilizei bastante de Os Sertões, mas não foi somente este material. Utilizei, li com muito interesse os artigos que Euclides da Cunha havia escrito antes de ir a Canudos, os artigos que escrevia no jornal O Estado de S. Paulo, e depois as crônicas que ele escreveu quando estava na Guerra, e tudo isso era muito distinto do que ele escreveu mais tarde em Os Sertões. Essas contradições, essas mudanças de perspectiva, de opinião, para mim foram muito úteis. Há um personagem na novela que não existiria se não fosse por Euclides da Cunha, embora use muito Euclides da Cunha, que é o Jornalista Míope.”